Como pagar a uma equipa comercial: fixo, comissão, ou os dois

O modelo de remuneração não é uma questão de contabilidade. É a instrução mais clara que dás à tua equipa sobre o que queres que ela faça.

Martim Francisco CEO da BoomLab · · 6 min de leitura

Há três modelos: só fixo, só comissão, e fixo mais variável. O terceiro é o que funciona na maior parte dos casos, mas a parte que decide não é a proporção entre os dois — é sobre o que a comissão é calculada. É aí que a maioria se engana.

Uma equipa comercial faz aquilo por que é paga. Não por má-fé: porque é o único sinal inequívoco que recebe sobre o que a empresa valoriza. Se a comissão é sobre faturação, vais ter faturação — incluindo clientes que não deviam ter entrado. Se é sobre margem, as conversas de desconto mudam na semana seguinte.

Os três modelos, lado a lado

ModeloQuando faz sentidoO que provoca
Só fixoFunções de prospeção, onde quem contacta não controla o fecho; e nos primeiros meses de quem está a aprenderDá estabilidade e deixa medir actividade sem a distorcer. Sem metas claras, acomoda.
Só comissãoVendedores independentes, ciclos curtos, produto já validadoFiltra depressa quem não aguenta. Mas afasta bons candidatos com contas a pagar, e empurra para a venda fácil em vez da venda certa.
Fixo + variávelA maior parte das equipas internasEquilibra segurança e incentivo. É o modelo que permite exigir processo, porque a pessoa não está em sobrevivência.

A pergunta que importa mais do que a proporção

Toda a gente discute se o variável deve ser 20% ou 40% do total. Essa discussão é menos importante do que esta: a comissão é calculada sobre o quê?

  • Sobre faturação — o mais comum, e o que mais estraga. Incentiva a fechar seja quem for, a qualquer preço, incluindo clientes que vão dar prejuízo em serviço.
  • Sobre margem — muda a conversa do desconto imediatamente. O comercial deixa de poder comprar o fecho com preço, porque isso sai-lhe do bolso.
  • Sobre cliente que fica — paga parte no fecho e parte aos três ou seis meses. É o que melhor alinha com o negócio, e o mais difícil de explicar a quem está a ser contratado.

Se só mudares uma coisa no teu modelo, muda isto antes de mexer nas percentagens.

Porque é que o "só comissão" atrai as pessoas erradas

A ideia por trás do só-comissão é tentadora: só pagas a quem produz, e quem é bom ganha mais. Na prática filtra pela variável errada.

Um bom comercial com experiência tem alternativas e normalmente tem responsabilidades financeiras. Vai escolher a empresa que lhe dá base mais variável, não a que lhe pede para financiar os primeiros meses. Quem aceita só-comissão é desproporcionadamente quem não tinha outra opção — ou quem tenciona ficar pouco tempo.

Há exceções reais: mercados de ciclo muito curto, ou pessoas que já trazem carteira própria. Mas como modelo por defeito para uma equipa interna, custa mais do que poupa.

Quanto deve o variável pesar

Não há um número certo, mas há uma lógica: o peso do variável deve acompanhar o controlo que a pessoa tem sobre o resultado.

  • Quem só prospeta e entrega a reunião a outro não controla o fecho. O variável deve ser pequeno, e ligado ao que ela controla — reuniões realizadas e qualificadas, não negócios fechados.
  • Quem fecha controla o resultado quase todo. Aqui o variável pode e deve pesar.
  • Quem faz as duas coisas fica no meio, e o modelo deve distinguir as duas partes em vez de as misturar numa percentagem só.

Os erros que se pagam caro

  • Mudar o plano a meio do ano. Mesmo que a mudança seja justa, o sinal que passa é que as regras mudam quando a empresa quer. Perde-se mais em confiança do que se ganha no acerto.
  • Tectos no variável. Travar o que um comercial pode ganhar é dizer-lhe que a partir de certo ponto não vale a pena. Quem bate no tecto em outubro desaparece em novembro.
  • Planos que ninguém consegue calcular de cabeça. Se a pessoa não consegue estimar quanto vai receber, o plano não a incentiva — só a confunde.
  • Comissão sem ligação ao que acontece depois. Pagar tudo no fecho, sem olhar se o cliente fica, transforma o comercial em alguém que optimiza a assinatura em vez da relação.

Como testar o teu modelo em cinco minutos

Pega no teu plano actual e responde a três perguntas:

  • Se eu fosse o comercial, qual era a forma mais rápida de maximizar o que recebo este mês?
  • Essa forma é boa para a empresa?
  • Se não é, porque é que o plano a recompensa?

Quando a resposta à primeira pergunta é "fechar fosse quem fosse, com o desconto que fosse preciso", já sabes o que precisa de mudar — e não são as percentagens.

Perguntas frequentes

Qual é o melhor modelo de remuneração para comerciais?

Fixo mais variável funciona na maior parte das equipas internas: dá segurança suficiente para se poder exigir processo e mantém o incentivo ligado ao resultado. Só comissão faz sentido em casos específicos, como vendedores independentes com carteira própria.

A comissão deve ser sobre faturação ou sobre margem?

Sobre margem, quase sempre. Comissão sobre faturação incentiva a fechar a qualquer preço, incluindo clientes que dão prejuízo depois. Sobre margem, o desconto deixa de ser gratuito para quem o dá, e as conversas de preço mudam de imediato.

Quanto deve pesar a parte variável?

Deve acompanhar o controlo que a pessoa tem sobre o resultado. Quem só prospeta e entrega a reunião a outro não controla o fecho — nesse caso o variável deve ser pequeno e ligado a reuniões realizadas. Quem fecha controla quase tudo, e aí o variável pode pesar.

Devo pôr um tecto máximo nas comissões?

Não. Um tecto diz ao comercial que a partir de certo ponto o esforço não compensa, e quem o atinge cedo no ano pára de produzir no resto. Se o problema é o custo, o lugar para o resolver é a base de cálculo, não o limite.

Como se paga a quem faz prospeção mas não fecha?

Pelo que controla: reuniões realizadas e qualificadas, não negócios fechados. Pagar a um prospetor sobre fechos é pagá-lo por decisões de outra pessoa, e cria atrito entre quem marca e quem fecha quando os números não aparecem.