A chamada a frio ainda funciona em Portugal?

A pergunta aparece em todas as reuniões de diagnóstico. A resposta curta é sim — e a longa explica porque tanta gente jura o contrário.

Martim Francisco CEO da BoomLab · · 6 min de leitura

A chamada a frio continua a funcionar em Portugal, e em vários setores continua a ser o canal que produz reuniões mais depressa. O que deixou de funcionar foi a chamada a frio feita como há dez anos: lista comprada, guião lido, cem números por dia à espera que um diga que sim.

Quem diz que "a cold call morreu" quase sempre testou a versão antiga e concluiu sobre a prática toda. É como dizer que o email não funciona depois de mandar mil mensagens iguais para uma lista comprada.

O que mudou de facto

Três coisas, e nenhuma delas é a chamada em si.

  • Atender passou a ser opcional. Números desconhecidos são filtrados, ignorados, pesquisados antes de se devolver a chamada. A taxa de atendimento caiu em todo o lado.
  • Quem atende já se informou. Antes a chamada era a primeira fonte de informação sobre um fornecedor. Hoje a pessoa pesquisa enquanto fala contigo — e nota em segundos se não sabes nada sobre a empresa dela.
  • O guião lido tornou-se audível. Toda a gente já recebeu chamadas de call center suficientes para distinguir alguém a ler de alguém a falar. Assim que se nota a leitura, a conversa acabou.

Onde continua a ser o canal mais rápido

A chamada ganha vantagem onde o decisor é difícil de alcançar por escrito e onde o ciclo de decisão é curto o suficiente para uma conversa mudar alguma coisa.

ContextoA chamada a frioPorquê
Decisor é o dono de uma PMEForteNão tem assistente a filtrar, decide sem comité, e responde melhor a voz do que a email
Serviço com ticket médio ou altoForteJustifica o tempo de uma conversa e dificilmente se vende só por escrito
Mercado pequeno e bem definidoFortePoucas centenas de empresas-alvo: dá para falar com todas, e o email perde-se
Grande empresa com compras centralizadasFracaA chamada não passa da recepção; o caminho é outro
Produto de baixo valor e volume altoFracaO custo por conversa não se paga

Os quatro erros que fazem parecer que morreu

1. Lista antes de critério

Comprar uma lista de dez mil contactos e começar a ligar é a forma mais rápida de provar que a cold call não funciona. Uma lista de duzentas empresas escolhidas a dedo, com o nome de quem decide, produz mais reuniões do que dez mil números aleatórios — e não queima a tua marca pelo caminho.

2. Falar do que vendes antes de saber o que falta

A chamada que começa com a apresentação do serviço perde nos primeiros quinze segundos. A que começa com uma pergunta concreta sobre o negócio da pessoa compra tempo para a segunda pergunta — e é na terceira ou quarta que se percebe se há alguma coisa para fazer ali.

3. Medir fechos em vez de medir conversas

Um comercial novo em prospeção não fecha no primeiro mês. Mas faz chamadas, e algumas tornam-se conversas. Se o único número que se olha é o fecho, desiste-se do canal antes de ele ter hipótese de mostrar resultado.

4. Desistir ao segundo contacto

A maior parte das oportunidades que se perdem na prospeção não se perdem por recusa. Perdem-se por silêncio, e por se interpretar silêncio como recusa. A pessoa não respondeu porque estava ocupada, não porque decidiu.

Como saber se está a funcionar antes de desistir

Olha para a sequência, não para o fim dela. São quatro números:

  • Chamadas feitas — se este não está no volume combinado, nenhum dos outros significa nada.
  • Conversas tidas — chamadas em que falaste com a pessoa certa, não com quem atendeu.
  • Reuniões marcadas — de entre essas conversas.
  • Reuniões realizadas — porque marcar e acontecer são coisas diferentes, e a distância entre as duas diz muito.

Quando um destes quebra, sabes onde mexer. Se há chamadas e poucas conversas, o problema é a lista ou a hora a que ligas. Se há conversas e poucas reuniões, o problema é o que dizes. Se há reuniões marcadas e poucas realizadas, o problema é a qualificação — estás a marcar com quem não decide.

A conclusão honesta

A chamada a frio não é um canal para toda a gente, e não é o primeiro canal que recomendamos a toda a gente. Mas em PME portuguesas, com serviços de ticket médio e um mercado-alvo que cabe numa lista, continua a ser a forma mais rápida de pôr reuniões no calendário dentro de semanas em vez de meses.

Perguntas frequentes

A chamada a frio ainda funciona em Portugal?

Sim, sobretudo em PME onde o decisor é o próprio dono e o serviço tem ticket médio ou alto. O que deixou de funcionar foi a versão antiga: lista comprada, guião lido e volume sem critério.

Quantas chamadas são precisas para marcar uma reunião?

Depende do setor e da qualidade da lista, e por isso o número médio de outra pessoa não te serve de nada. O que importa é medires o teu: chamadas feitas, conversas tidas, reuniões marcadas e reuniões realizadas. A relação entre estes quatro diz-te onde está o problema.

Qual é a melhor hora para fazer chamadas a frio?

Para donos de PME, o início da manhã e o fim da tarde costumam funcionar melhor do que o meio do dia, porque é quando estão menos em reuniões. Mas isto varia por setor, e vale mais testar duas semanas no teu mercado do que seguir uma regra geral.

É melhor ligar ou mandar email?

Não é uma escolha: funcionam melhor juntos. O email prepara a chamada e a chamada dá contexto ao email seguinte. Em mercados onde o decisor é o dono, a chamada costuma abrir mais depressa; em grandes empresas, o email tem mais hipótese de chegar.

Quantas vezes se deve insistir antes de desistir?

Mais do que a maioria faz. A maior parte das desistências acontece ao segundo contacto, e a maior parte das oportunidades perde-se por silêncio e não por recusa. Enquanto a pessoa não disser que não, não é não — mas cada contacto tem de trazer alguma coisa nova, não repetir o anterior.